Uma reportagem na Folha de São Paulo da semana passada mostra como um grupo de alunos do Ensino Médio lutou e derrubou uma proposta de Ensino Integral em uma escola pública paulista.
Qual o verdadeiro significado disso? A resposta fácil seria:
“Esses jovens de hoje em dia são mesmo um bando de irresponsáveis”
Será?
Na verdade, a reportagem mostra que essa é uma escola diferenciada, e que muitos alunos vem de longe pra frequentá-la, em busca de um ensino de melhor qualidade. Então por quê um grupo de estudantes com esse perfil se recusaria ao Ensino Integral? Não seria essa atitude uma contradição com a busca por uma melhor educação?
Alguns trechos da reportagem e a discussão que segue na área de comentários são reveladores. Eu identifiquei alguns pontos bem interessantes:
- a comunidade (pais, professores e alunos) foi praticamente pega de surpresa, ou seja, aparentemente o projeto foi imposto de cima para baixo sem consulta prévia.
- um comentário deixa escapar que o tempo adicional seria preenchido com “cursos banais” (foram citados “culinária” e “dança” como exemplos).
- um outro comentário identifica a proposta como uma medida apenas para o governo “fazer número”, ou seja, poder reportar em seus relatórios que tem “X” escolas com ensino integral.
Ao meu ver, esses alunos, mesmo que não sabendo muito bem articular o que se passou ali, intuitivamente entendem uma coisinha ou duas que as “autoridades” insistem em não enxergar…
Culinária e dança são “cursos banais”?
Eu duvido que esses alunos não entendam a importância da comida, dos esportes e da arte na vida deles. Eles simplesmente acham que a escola não é o melhor lugar para aprender essas coisas.
Será que eles estão errados?
O que é mais eficiente: uma avó ensinando a fazer um bolo na cozinha de casa ou um professor exigindo que se decore uma receita de bolo em troca de uma nota? (ou você tem alguma dúvida que bizarrices como essa possam acontecer nessas “aulas banais”?)
O que está subjacente à essa história é, no meu entender, a fina percepção (ainda que subconsciente) desses alunos de que escola tem um papel bem definido (e infelizmente, bem limitado) na vida deles: passar no vestibular ou fazer uma boa pontuação no ENEM.
Eu sei, não deixa de ser lamentável essa visão da escola, mas esses estudantes estão sendo apenas realistas. Nas atuais condições, este é o único papel digno de nota do Ensino Médio: a única coisa que o conecta ao mundo real dos alunos é ser um passaporte indigesto, mas obrigatório, para chegar à Faculdade. O que para a maioria, principalmente em uma escola pública, significa uma enorme ascensão social. Isso sim, uma coisa real e concreta para eles.
Conclusão: dando um baile nos políticos…
Nesse episódio curioso, os alunos dessa escola mostram saber exatamente o que podem e o que NÃO podem esperar da escola que tem. E mais ainda, mostram que não tem tempo a perder fazendo figuração para políticos que não entendem nada de educação além das estatísticas.
Ainda que possa não parecer à primeira vista, deram uma aula de maturidade, objetividade e cidadania.

